O homem à beira do abismo: romantismo anticapitalista de Löwy e Sayre
| Caricatura italiana de 1848. |
Um livreto cheio de categorias valiosas: eis o que é Romantismo e Política, de Michael Löwy e Robert Sayre. O que pretendo fazer aqui é uma breve exploração dessas categorias e suas consequências misturando um pouco de resumo e de resenha, de informação sobre o texto e de reflexão sobre ele.
O livro é formado por dois artigos independentes mas que são unidos pelo tema comum do movimento romântico como resistência contra as novas formas que o capitalismo vai
tomando desde o século XVIII e que se acentuam do século XIX em diante,
endossando uma interpretação marxista heterodoxa da atitude romântica. É comum na bibliografia marxista ou não-marxista o enquadramento que liga quase que exclusivamente o romantismo à fuga do mundo ou ao rechaçamento da via revolucionária, o alijando de dinâmica política. Mas é justamente nisto que as categorias dos autores são atraentes, pois
colocam posturas como seu afastamento político (no qual a história tem um
papel fundamental) ou diversas matizes do conservadorismo como uma
atitude política em si, cujo valor como resistência capitalista é
fundamental para o desenvolvimento de uma crítica mais acirrada a partir
da segunda metade do XIX.
O ROMANTISMO EM TIPOS
A primeira e mais longa parte do texto (também a mais interessante) chama-se Figuras do Romantismo Anticapitalista
e é nela que os autores desenvolvem seu arsenal categórico-conceitual.
Como é comum em obras que ousam fazer esse serviço necessário de colocar
"os pingos nos is", há o aviso repisado de que tratam-se de tipos
ideias weberianos e que nenhuma dessas categorias é encontrada em
seu estado de pureza absoluta na experiência histórica concreta, seja de
autores específicos ou de redes intelectuais. Pois bem, passado o aviso
de salvaguarda quando ao alcance das categorias, temos os seguintes
tipos:
Romantismo restitucionista:
Pretende,
por assim dizer, voltar no tempo através da transcedência do presente e "restabelecer normas sociais e culturais pré-capitalistas
desaparecidas (geralmente medievais)" (p. 29). Alguns exemplos: as obras
operísticas de Richard Wagner, Kulturpessimisten como Spengler, os
poetas ingleses Worthsworth e Coleridge assim como o historiador
Carlyle.
É o que alcança o maior número de casos e está "mais próximo da essência do fenômeno global" (p. 41), sendo encontrado principalmente entre escritores e tipos artísticos, já que seu projeto inconcretizável inspirava os inclinados ao simbólico e estético.
Seu foco principal é a Alemanha dos jovens frustrados com as promessas da Revolução Francesa (Frühromantik), reúne nomes como Ritter, Schleiermacher, os irmãos Schlegel, Ludwig Tieck e Novalis (formulando sua famosa oposição à Aufklärung),
além de mais tardiamente E.T.A Hoffmann e Eichendorff. Também na
Inglaterra ele está presente entre literatos, dos quais encontra-se forte
expressão nos romances de Sir Walter Scott e das pinturas
pré-rafaelitas. Na França, por outro lado, as posturas tendem a
inverterem-se, gerando uma orientação mais liberal ou democrática para o
futuro.
Progressivamente
a positividade tendeu a dar espaço ao pessimismo radical e as tendências
de direita, vistas no romantismo resignado, revolucionário ou
fascista. Mesmo assim permaneceu forte até a Segunda Mundial em
nomes como Spengler, Yeats e T.S Eliot. Um dos melhores exemplos estaria
em Georges Bretanos, notadamente em Cemitérios Sob a Lua.
Romantismo conservador:
Ao
invés de invocar o passado como modelo para o presente, este tipo tem
como meta a manutenção daquilo que ainda não havia sido derrubado pela
Revolução Francesa, o que restringe geograficamente em certa medida esta
tipologia aos casos inglês e alemão. Tem fronteiras tênues com o romantismo conservador, sendo
que seu limite está na aceitação elementos da ordem
capitalista.
Presente em autores políticos como aqueles da Escola História de Direito (Hugo e Savigny), da filosofia positiva do Estado e dos membros da ideologia tory. O estadista e filósofo Edmund Burke é um dos grandes nomes desta tendência, principalmente por sua crítica ao Iluminismo e por representar uma mudança em relação ao passado em comparação ao restitucionalistas, já que a Idade Média é mais justificadora do estado de coisas atual do que um modelo de retorno, havendo portanto uma tendência em ver a história como um desdobramento orgânico geracional.
Presente em autores políticos como aqueles da Escola História de Direito (Hugo e Savigny), da filosofia positiva do Estado e dos membros da ideologia tory. O estadista e filósofo Edmund Burke é um dos grandes nomes desta tendência, principalmente por sua crítica ao Iluminismo e por representar uma mudança em relação ao passado em comparação ao restitucionalistas, já que a Idade Média é mais justificadora do estado de coisas atual do que um modelo de retorno, havendo portanto uma tendência em ver a história como um desdobramento orgânico geracional.
Romantismo fascista:
Apesar de os fascismos serem em seu núcleo opostos ao romantismo, ambos estão unidos pela rejeição dos rumos do mundo moderno e pela nostalgia.
Importante
a ressalva dos autores de que existe uma linha historiográfica que vê o
romantismo como prelúdio do fascismo, tipo de leitura que atribui ao
nacionalismo de Fichte e às posturas dos neo-românticos como Nietzsche,
Wagner e Gobineau valor de precursores. Há no texto a recusa desse tipo
de relação, afirmando que não há "correspondência entre as visões de
mundo desses autores e a do fascismo." (p. 50)
Então o que é o romantismo fascista? Deve haver o fator da nostalgia, como vemos na ideologia nazista de idolatração da "velha Alemanha tribal e feudal, da vida campestre tradicional contra o frenesi das grandes cidades, das antigas Gemeinschaften contra a Gesellschaft de hoje. Tais nostalgias figuram na arquitetura, nas artes plásticas e no cinema da época do nazismo, como também na literatura." (p. 51). Vê-se então uma mistura complexa de elementos de anticapitalismo, condenação violenta da democracia, comunismo, anti-semitismo, valorização da subjetividade, glorificação irracional do estado puro, do instinto e da agressividade: "o culto romântico do amor torna-se seu oposto: o elogio da força e da crueldade" (p. 51)
Romantismo resignado ou "desencantado":
Caracterizado por uma "visão trágica do mundo". Aceita com relutância o capitalismo, mas exerce crítica feroz à industrialização. São autores deste tipo também Dickens, Flaubert, Thomas Mann e está fortemente enraizado na primeira geração da sociologia alemã como Lujo Bretano, Gustav Schmoller, Alfred Troeltsch, Georg Simmel, Karl Mannheim e Max Weber.
A diferença na postura anticapitalista deste grupo está na "dimensão trágica na medida em que seus valores sociais e culturais (de caráter pré-capitalista) parecem condenados ao declínio e oa desaparecimento na realidade presente, ou seja, a sociedade industrial/capitalista" (p. 55). Tal tragicidade é percebida em Georg Simmel, principalmente em seu ensaio Der Begriff und die Tragödie der Kultur (O Conceito e a Tragédia da Cultura), presente em Des Geldes (Filosofia do Dinheiro), de 1900.
Para Löwy e Sayre, o maior representante desta vertente é o sociológo Ferdinand Tönnies, em seu Gemeischaft und Gesellschaft (Comunidade e Sociedade), de 1887. Aqui reaparece o confronto clássico - que será "um dos principais temas do romantismo anticapitalista na Alemanha" (p. 56) - entre o conceito de Kultur (valores da comunidade ligados aos elementos tradicionais e locais de ajuda mútua) e Zivilization (mundo da fábrica, do Estado e da cidade). A tragicidade de Tönnies estaria na certeza de que o declínio das formas comunais era irreversível, sendo uma perda irreparável.
Romantismo liberal:
Acredita que o capitalismo não é tão mau após o saneamento de alguns problemas morais e sociais. São exemplos o historiador Michelet e o escritor Victor Hugo.
Aqui existe também um problema conceitual, uma vez que liberal era ainda um termo bastante impreciso no começo do século XIX, podendo guardar tanto o sentido de uma parcela politicamente orientada para a defesa dos interesses burgueses frente à aristocracia/igreja como também uma orientação progressista (mudança e futuro) mais ampla.
Então o que é o romantismo fascista? Deve haver o fator da nostalgia, como vemos na ideologia nazista de idolatração da "velha Alemanha tribal e feudal, da vida campestre tradicional contra o frenesi das grandes cidades, das antigas Gemeinschaften contra a Gesellschaft de hoje. Tais nostalgias figuram na arquitetura, nas artes plásticas e no cinema da época do nazismo, como também na literatura." (p. 51). Vê-se então uma mistura complexa de elementos de anticapitalismo, condenação violenta da democracia, comunismo, anti-semitismo, valorização da subjetividade, glorificação irracional do estado puro, do instinto e da agressividade: "o culto romântico do amor torna-se seu oposto: o elogio da força e da crueldade" (p. 51)
Romantismo resignado ou "desencantado":
Caracterizado por uma "visão trágica do mundo". Aceita com relutância o capitalismo, mas exerce crítica feroz à industrialização. São autores deste tipo também Dickens, Flaubert, Thomas Mann e está fortemente enraizado na primeira geração da sociologia alemã como Lujo Bretano, Gustav Schmoller, Alfred Troeltsch, Georg Simmel, Karl Mannheim e Max Weber.
A diferença na postura anticapitalista deste grupo está na "dimensão trágica na medida em que seus valores sociais e culturais (de caráter pré-capitalista) parecem condenados ao declínio e oa desaparecimento na realidade presente, ou seja, a sociedade industrial/capitalista" (p. 55). Tal tragicidade é percebida em Georg Simmel, principalmente em seu ensaio Der Begriff und die Tragödie der Kultur (O Conceito e a Tragédia da Cultura), presente em Des Geldes (Filosofia do Dinheiro), de 1900.
Para Löwy e Sayre, o maior representante desta vertente é o sociológo Ferdinand Tönnies, em seu Gemeischaft und Gesellschaft (Comunidade e Sociedade), de 1887. Aqui reaparece o confronto clássico - que será "um dos principais temas do romantismo anticapitalista na Alemanha" (p. 56) - entre o conceito de Kultur (valores da comunidade ligados aos elementos tradicionais e locais de ajuda mútua) e Zivilization (mundo da fábrica, do Estado e da cidade). A tragicidade de Tönnies estaria na certeza de que o declínio das formas comunais era irreversível, sendo uma perda irreparável.
Romantismo liberal:
Acredita que o capitalismo não é tão mau após o saneamento de alguns problemas morais e sociais. São exemplos o historiador Michelet e o escritor Victor Hugo.
Aqui existe também um problema conceitual, uma vez que liberal era ainda um termo bastante impreciso no começo do século XIX, podendo guardar tanto o sentido de uma parcela politicamente orientada para a defesa dos interesses burgueses frente à aristocracia/igreja como também uma orientação progressista (mudança e futuro) mais ampla.
Definimos a perspectivasdo romantimso liberal como aquela que, mesmo fazendo a crítica ao mundo moderno burguês regido pelo poder do dinheiro, não tira consequências radicais dessa crítica, contentando-se em fazer votos de reforma quaisquer e não de mudanças mais fundamentais. Esses românticos fazem pois as pazes, ao menos em certa medida, com o status quo, e recuam diante da perspectiva de subversões sociais. (p. 58)
Existem
duas formas de os autores acomodarem a contradição inerente entre
romantismo e liberalismo: ou há a ruptura entre o perfil da escrita
política e literária (como no caso de Saint-Beuve) ou as contradições
coexistem dentro da obra (como em V. Hugo).
É a categoria mais ampla e recusa a fuga ou a reforma, optando pela negação do capitalismo e a eleição de uma "utopia futura na qual certos traços e valores da sociedade pré-capitalista seriam reencontrados." (p. 31). Esse tipo ainda tem subcategorias:
1) Romantismo jacobino-democrático: encontra a referência utópica em Roma ou Grécia antigas, como visto em Heine, Blake, Rousseau, Hölderlin, Stendhal e Shelley. É formado, na Alemanha, pela geração que foi entusiasmada pela Revolução Francesa (e que, posteriormente, tornou-se restitucionista). Os ingleses como William Blake, Coleridge e Worthsworth, alé dos mais radicais como Byron e Shelley também fazem parte desse tipo.
2) Romantismo populista: alternativa se volta para o modo de produção camponesas ou artesanais, como nos romances de Tolstoi. Baseado na rejeição ao capitalismo ocidental, opta pela comuna rural russa e tem como expressão política o Narodnaya Volya (a vontade do povo), movimento que desejava comunicar ao campesinado as ideias revolucionárias. Também Sismondi, apesar de não ser revolucionário, guarda afinidades com o tipo já que condena a busca da riqueza por ela mesma (cremástica).
3) Socialismo utópico-humanista: a noção de liberdade é coletiva e dirigida à toda a humanidade e não apenas ao proletariado. Um de seus representantes foi Moses Hess, autor que desenvolveu, em História Sagrada da Humanidade (1837), um messianismo histórico inspirado na antiguidade e, em La Triachie Européenne (1841), propõe uma tese arrojada de "constituição da Europa como "organismo" unificado, a partir de uma aliança espiritual entre França, Alemanha e Inglaterra, que conduziria ao estabelecimento do Reino de Deus sobre a Terra." (p. 69).
4) Romantismo libertário: encontra o auge entre o final do século XIX e começo do XX. Opõe-se ao estado centralizado, insistindo nas comunidades locais, e tem tendências políticas anarquistas. São seus expoentes Strindberg, Oscar Wilde e Kafka. Gustav Landauer, cuja inspiração na religiosidade leva-o à tradução dos escritos de Mestre Eckart, desenvolve inclusive uma crítica a Marx, já que para ele a "tarefa do socialismo não consiste em aperfeiçoar o sistema industrial e sim em ajudar os homens a reencontrar a cultura, o espírito, a liberdade e a comunidade." (p. 71)
5) Romantismo marxista: opera ao mesmo tempo com nostalgia do passado (da Gemeischaft, comunidade) como na aposta de uma utopia futurista, como aparece nos pensadores da Escola de Frankfurt, em Lukács, Bloch, Raymond Williams e Thompson. Os primeiros esforços de integrar o neo-romantismo ao marximo marca do final do século XIX, principalmente com William Morris, idealizador, juntamentwe com Burne Jones e Dante Gabriel Rossetti, da Confraria Pré-Rafaelita. Morris desenvolve um pensamento que liga dialeticamente futuro e passado.
ROMANTICOS UTÓPICOS QUANTO À REVOLUÇÃO FRANCESA
Como foi dito na introdução, o romantismo é comumente ligado à uma postura política anti-revolucionária. No entanto, o texto apresenta posicionamentos intelectuais que aderiram, ainda que de forma fluída e de inspiração rousseauniana, à Revolução Francesa.Curiosamente, as manifestações aconteciam no plano literário. A obra Quatre vingt treize, de V. Hugo, mostra como parte dos românticos - como o próprio Hugo - concebiam a revolução em termos de "poesia, amor, benevolência, "utopia" (p. 85), entendendo que a Revolução deveria adentrar o campo social.
TREVAS VERSUS LUZES: ROMANTISMO E ILUMINISMO
Edmund Burke, estadista e filósofo inglês, encarnaria os valores românticos de ojeriza ao Iluminismo de forma bastante exemplar, considerando o pensamento das luzes como uma "filosofia bárbara produzida por "corações frios"" (p. 47), postura que lhe rendeu leitores na Alemanha.
No entanto, por mais que essa constatação dê conta de algumas questões, ela não resolve a relação entre esses dois momentos por completo. Na tipologia romantismo jacobino-democrático, a relação entre os opostos é maior. O elo aqui, como não é de surpreender, é Rousseau, cuja nostalgia do homem primitivo o coloca como uma espécie de produtor de antítese dentro das forças fortemente positivas de orientação para o futuro no Iluminismo. Da mesma forma, Löwy e Sayre ainda apontam o viés Aufklärer no racionalismo do romantismo libertário que em Landauer "reconhece a importância e o valor de certas aquisições da civilização: A Aufklärung, a abolição das superstições, o avanço da ciência." (p. 72).
O ALCANCE DO ROMANTISMO
A
tendência atual de não romper com romantismo, ou seja, de não
considerá-lo como um movimento e sim como uma ideologia, visão de mundo (Weltanshauung)
ou postura intelectual leva ao questionamento sobre o quanto de
romantismo ainda sobrou em nós. Como vimos nos exemplos citados na
tipologia acima, o fato de os nomes adentrarem biografias do século XX -
como os frankfurtianos - indica que a cronologia é extendida a ponto de
mostrar que o romantismo é uma herança de longa duração. Casos de
romantismos contemporâneos podem desenrolar-se ad infinitum.
Outra
característica explorada por Löwy e Sayre que faz com que o romantismo
apareça como um fenômeno interminável é sua característica
contraditória, ambígua e "hermafrodita" (p. 34). Isso confere uma
unidade na descontinuidade que é bastante curiosa. Mas vale a ressalva
de que nem todo pensamento é romântico, mesmo que contenha
características que aparentemente sejam românticas. Esse é o caso,
segundo os autores, de vários ramos do conservadorismo, liberalismo e
marxismo que além de não serem românticos, podem, inclusive, serem
anti-românticos. Ainda existiria a via dialética que não é romântica nem
anti-romântica e sim um superação das mesmas a partir de uma complexa fusão do romantismo e de sua antítese.
O CONCEITO DE INTELLIGENTSIA E A AFRONTA AO DOGMATISMO DEFORMADO
Além disso, a expansão do conceito é maior na medida
em que o texto propõe o desenraizamento do romantismo de uma
experiência de classe (burguesa) e seu realocamento sociológico que leve
em conta a "sensibilização diferencial a esta experiência na totalidade
social" e que produz uma intelligentsia, ou seja, um "grupo
composto de indivíduos de diversas origens sociais, cuja unidade e
autonomia (relativa) resultam de uma posição comum no processo de
produção da cultura." (p. 37).
A
intelligentsia tradicional é fator central para a compreensão do atrito
entre visões de mundo que eram produzidas nesse momento de mudanças
históricas profundas. Existe, de fato, uma alteridade marcante que vai
além de locais sócio-econômicos e adentram o terreno dos valores morais.
Assim, o velho mundo está baseado em fatores qualitativos, que abarcam
em todos os aspectos uma concepção espiritual das relações e que se colocam em
linha de embate com um sistema cuja definição passa por fatores
quantitativos: nesse novo mundo, os tradicionais tem que atribuir preço
ao que agora tornam-se produtos espirituais. A venda introduz o polo de
consumo, o que prova o argumento da localização sócio-econômica como não
sendo o fundamental para a definição do problema:
Ela [a audiência dessa intelligentsia] é composta, potencialmente, de todas as classes, frações de classe ou categorias sociais para as quais o advento e o desenvolvimento do capitalismo industrial moderno provocam um declínio ou uma crise no seu status econômico, social ou político, e/ou ameaçam seu modo de vida e seus valores culturais aos quais estão ligadas. (p. 39, grifo nosso)
E
não só da decadência parece se alimentar o romantismo, já que se fosse
assim sua durabilidade estaria seriamente abalada. Mas não é o que vemos
e a hipótese é de uma "influência difusa" do romantismo que recai sobre
toda a sociedade, como se esse elemento espiritual acabasse driblando os
efeitos destrutivos do capitalismo (ou mesmo deles retroalimentando-se).
Este tipo de comentário significa um posicionamento mediante a literatura marxista sobre o tema, pois sempre houve um problema em ligar o marxismo ao romantismo quando o último é encarado como conservadorismo ou apatia política, além da relutância de algusn autores em admitir o horizonte utópico de Marx.
Tal redução do romantismo a uma ideologia burguesa - colhida aqui em críticos que têm, aliás, qualidades reais - é de fato um lugar-comum de uma certa deformação dogmática que rejeita violentamente as afinidades entre as visões de mundo marxista e romântica. (p. 35)Da mesma forma, há um acerto de contas com o "movimento dogmático" na medida em que os adjetivos "retrógrado" ou "passadista" são considerados pejorativos e abolidos do vocabulário do texto (p. 29), adotando-se sugestões como restitucionalista, emprestado do historiador das religiões Jean Seguy. Tudo segue na busca de uma rede mais fina para a apreensão do problema romântico, sem que se perda o tino sociológico de percepção da questão.
Por ocasião do lançamento do livro, a Revista de História lanço uma resenha deste mesmo livro. O link está aqui.|
|
REFERÊNCIA:
LÖWY, Michel;
SAYRE, Robert. Romantismo e Política.
São Paulo: Paz e Terra, 1993, 98p.
Perfil do livro na editora. |
Recorte: Georges Bernanos e o Brasil
Reprodução da matéria divulgada no site da Biblioteca Nacional por ocasião do Ano do Brasil na França (2010).
Georges Bernanos e o Brasil
| Georges Bernanos |
Daquilo que poderia parecer um acidente de percurso, uma escala no Brasil que finalmente vai se
estender por sete anos (1938-1945), Georges Bernanos fará mais tarde uma predestinação: “[…]
desde que voltei ao meu país, compreendo melhor do que antes que minha estada no Brasil não foi
apenas um mero episódio de minha singela vidinha, mas estava inscrita desde sempre na trama de
meu destino. Amei o Brasil por uma série de razões, mas em primeiro lugar, e antes de tudo, porque
eu nascera para amá-lo” (Carta a Raul Fernandes, Bandol, 1° de março de 1946).
Fugindo da França e da Europa, após sua estadia nas Ilhas Baleares e seu panfleto contra o terror
franquista, Os grandes cemitérios sob a lua, Georges Bernanos aspirava realizar um antigo projeto
que três amigos de juventude tinham concretizado bem antes dele: se instalar no Paraguai. Ele
embarca em Marselha no dia 20 de junho de 1938, com destino a América do Sul. Mas nem Assunção
nem Buenos Aires ofereciam oportunidades que se adaptassem ao magro pecúlio que ele reunira.
Portanto, é no Rio de Janeiro que ele ancora, no início de setembro. Logo circundado por um grupo
de intelectuais católicos que admiram e auxiliam o autor de Diário de um pároco de aldeia (1936),
ele inicia uma busca incerta que o leva dos hotéis cariocas a Pirapora, nas profundezas setentrionais
de Minas Gerais, passando por Itaipava, Juiz de Fora e Vassouras, antes de finalmente estabelecer
sua “tribo”, em agosto de 1940, perto de Barbacena, na Cruz das Almas.
A meio caminho entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, esta propriedade a qual ele acrescentou
três construções vai representar para o escritor um período de estabilidade e de retorno a um certo
equilíbrio, mesmo se com frequência ele reside no Rio, especialmente em 1944-1945. Enquanto sua
filha Claude administra a fazenda, ele peleja contra a liquidação pétainista na mídia internacional,
como a da França livre, a BBC, e nos jornais brasileiros, opinando regularmente, a partir de junho de
1940, n’O Jornal, um dos órgãos dos Diários Associados pertencentes à Assis Chateaubriand. De maio
de 1940 a maio de 1945, ele redige mais de trezentos artigos ou mensagens radiofônicas, alguns
deles tendo permanecidos inéditos, em marcha “à honra como quem marcha ao canhão”. (Essais et
écrits de combat, tomo II, Paris: Gallimard, “Bibliothèque de la Pléiade”, 1995, p. 203).
Portanto, se o Brasil foi para Bernanos uma terra de exílio, um refúgio onde “digerir a vergonha”
do “espírito de Munique”, após também ter sido por algum tempo a terra onde sonhou refundar
uma aldeia, uma paróquia da “antiga França”, o escritor ali teceu rapidamente sólidas amizades.
Entre os mais próximos, ele encontrou apoios preciosos de gente que não mediu esforços para lhe
abrir um espaço de vida e de expressão: Virgílio de Mello Franco, Raul Fernandes, Geraldo França
de Lima e Pedro Octavio Carneiro da Cunha, ou ainda Edgar de Godoy de Mata Machado, tradutor
de Diário de um pároco de aldeia, a crítica Lucia Miguel Pereira, que por algum tempo traduziu seus
artigos, e seu editor no Rio, Charles Ofaire (Atlântica editora), o primeiro a publicar Monsieur Ouine
(romance finalizado em Pirapora, em 1941), Lettre aux Anglais (1942) e Le Chemin de la Croix-des-
Âmes (coletânea de intervenções publicada em quatro volumes, de 1943 a 1945). A isso é preciso
acrescentar seu diálogo com intelectuais e poetas católicos de renome: Augusto Frederico Schmidt,
Jorge de Lima (cuja tradução espanhola de Poemas é prefaciada por Bernanos), Alceu Amoroso Lima
(que trouxera ao Brasil o casal Maritain em 1936), Austregésilo de Athayde, Murilo Mendes…, que
darão sobre ele vibrantes testemunhos de consideração e de amizade.
Sua fama, claro, foi bem diferente da de Jacques Maritain, que desempenhou um papel relevante,
tanto no Brasil quanto na América Latina, para a difusão do neotomismo e a evolução política do
catolicismo à democracia. Obstinado pela liberdade de tom e de pensamento, Georges Bernanos
não tem a maleabilidade diplomática do teólogo que, outro sinal de diferenciação, durante a guerra
escolheu com sua mulher o exílio americano. Aliás, o escritor terá tido com o editor de Sob o sol de
Satã (1926) uma relação em geral mais tensa do que amistosa. Esbravejava, vituperava, com o risco
de por vezes incomodar seus interlocutores, desestabilizados por tiradas como aquela contra “o
Alto Banco israelita” que originou uma polêmica com Otto Maria Carpeaux (janeiro-maio de 1944).
Monarquista invocando uma nova “revolução de 89”, ele irrita também os meios gaullistas, às vezes
quase tanto quanto serve-lhes à causa, como por exemplo ao resistir aos chamados do general que o
queria ao seu lado. Em todo caso, naqueles tempos conturbados, Georges Bernanos encarnou, com
seu verbo potente e livre, tanto junto a intelectuais brasileiros frequentemente opostos à ditadura
de Getúlio Vargas, quase sempre francófilos e hostis às forças do Eixo, quanto junto à parcela da
colônia francesa que não se resignando ao regime de Vichy às vezes ainda permanecia, por causa
do estatuto, presa a uma certa reserva, Bernanos encarnou a dignidade e a continuidade de um
certo “modelo” francês.
DOCUMENTOS ASSOCIADOS
Se os textos que Georges Bernanos redigiu no Brasil — essencialmente escritos de luta, mas também
diários e correspondência —, decepcionam a curiosidade exótica ou pitoresca, é porque seu desejo
e seu olhar estão mobilizados pelo campo de batalha europeu e seus próprios ideais de cristandade
cavalheiresca. Não se poderia deduzir disto uma indiferença em relação ao país e a sua cultura, que
é, ao contrário, objeto de uma grata benevolência e, além disso, contraponto ideal ao american
way of life que ele abominava. Georges Bernanos leu inúmeros livros brasileiros quando de sua
estada no Brasil, confessando um fraco por dois dentre eles: as picarescas Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida (1854), do qual uma versão francesa foi publicada
justamente nesse período por seu editor Charles Ofaire (Mémoires d’un sergent de milices, tradução
de Paulo Rónai, Atlântica editora, 1944); e o frescor das recordações de infância de Helena Morley,
Minha vida de menina, publicado também durante essa época, em 1942, e que tem como cenário
Minas Gerais do fim do século XIX. Em janeiro de 1945, ao declinar o convite para participar do
primeiro congresso da Associação Brasileira de Escritores (ABDE), ele enviou a seus membros uma
calorosa mensagem onde disse: “[…] da admiração e gratidão que sinto pelos escritores brasileiros,
em particular pelos romancistas e poetas cujas obras foram muitas vezes um reconforto para minha
solidão de Cruz das Almas.”
A Dream Within a Dream em O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger
A penúltima parte da cultuada franquia
A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street) faz uma ginástica e tanto para
ressuscitar o macabro e espirituoso Freddy Krueger pela sétima vez. A estreia
do primeiro filme aconteceu em 1984 e já naquele momento Freddy Krueger foi
reconhecido como um dos membros do panteão do terror cinematográfico da nova
geração (aquela que se constituirá entre as décadas de 70 e 80) com seu humor
de mau tom, seus trejeitos felinos e sua criatividade para atrair os jovens
para suas armadilhas enquanto dormem.
A saída de mestre neste filme é romper a quarta parede e assumir Freddy como ficção, criando um efeito de
estranhamento forte o suficiente para prender a atenção do público. A estrutura
é do tipo “mais estranho do que a ficção”, um filme dentro de uma realidade que
é também filme (ainda que essa última camada apareça no filme como a “realidade
real”), o que causa uma fusão entre realidade e filme: os atores representam a
si mesmos dentro do filme, incluindo a audácia de revelar o rosto por trás de
Krueger, o ator consagrado no gênero Robert Englund, assim como o próprio
criador, Wes Craven.
| Robert Englund |
![]() |
| Wes Craven |
Na justificativa da continuação (vemos que ainda na metade da duração o filme está explicando a si mesmo) entendemos que as seis histórias anteriores nasceram dessa forma, foram sonhadas pelo roteirista/diretor sob algum tipo de influência sobrenatural. E aqui está um dos pontos mais interessantes da estratégia: Freddy estaria emergindo na “realidade real” porque é progressivamente esquecido na realidade fílmica: enquanto seus requintes de terror divertidíssimo eram contadas e lembradas nos filmes, o vilão da rua Elm estava preso nelas, mas no momento em que o horror não é mais representado ficcionalmente, ele tem que concretizar-se e fazer-se contar na realidade da vida real. Isso nada mais é do que a própria celebração da função do horror ficcional na vida do homem moderno já que é através do ritual de encenação no qual há margens de segurança e regras de narrativa que a sociedade expurga seus males e medos através do gênero que criou como representação de si. É preciso que haja a hora do pesadelo no filme para que possamos estar despertos na vida real e, ao mesmo tempo, questiona-se o quanto do real está suscetível às investidas dos sonhos horríveis, o quanto a realidade é, como disse Allan Poe, “a dream within a dream”... Quem pode ouvir ao fundo “1, 2... Freddy is comming for you”?
E, apenas como uma nota, não podemos deixar de mencionar a presença daquela que foi provavelmente a criança mais encantadoramente assustadora do cinema: Mikos Hughes, o inesquecível Gage de O Cemitério Maldito (Pet Sematery), como Dylan.
| Hughes e Englund |
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