A penúltima parte da cultuada franquia
A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street) faz uma ginástica e tanto para
ressuscitar o macabro e espirituoso Freddy Krueger pela sétima vez. A estreia
do primeiro filme aconteceu em 1984 e já naquele momento Freddy Krueger foi
reconhecido como um dos membros do panteão do terror cinematográfico da nova
geração (aquela que se constituirá entre as décadas de 70 e 80) com seu humor
de mau tom, seus trejeitos felinos e sua criatividade para atrair os jovens
para suas armadilhas enquanto dormem.
A saída de mestre neste filme é romper a quarta parede e assumir Freddy como ficção, criando um efeito de
estranhamento forte o suficiente para prender a atenção do público. A estrutura
é do tipo “mais estranho do que a ficção”, um filme dentro de uma realidade que
é também filme (ainda que essa última camada apareça no filme como a “realidade
real”), o que causa uma fusão entre realidade e filme: os atores representam a
si mesmos dentro do filme, incluindo a audácia de revelar o rosto por trás de
Krueger, o ator consagrado no gênero Robert Englund, assim como o próprio
criador, Wes Craven.
| Robert Englund |
![]() |
| Wes Craven |
Na justificativa da continuação (vemos que ainda na metade da duração o filme está explicando a si mesmo) entendemos que as seis histórias anteriores nasceram dessa forma, foram sonhadas pelo roteirista/diretor sob algum tipo de influência sobrenatural. E aqui está um dos pontos mais interessantes da estratégia: Freddy estaria emergindo na “realidade real” porque é progressivamente esquecido na realidade fílmica: enquanto seus requintes de terror divertidíssimo eram contadas e lembradas nos filmes, o vilão da rua Elm estava preso nelas, mas no momento em que o horror não é mais representado ficcionalmente, ele tem que concretizar-se e fazer-se contar na realidade da vida real. Isso nada mais é do que a própria celebração da função do horror ficcional na vida do homem moderno já que é através do ritual de encenação no qual há margens de segurança e regras de narrativa que a sociedade expurga seus males e medos através do gênero que criou como representação de si. É preciso que haja a hora do pesadelo no filme para que possamos estar despertos na vida real e, ao mesmo tempo, questiona-se o quanto do real está suscetível às investidas dos sonhos horríveis, o quanto a realidade é, como disse Allan Poe, “a dream within a dream”... Quem pode ouvir ao fundo “1, 2... Freddy is comming for you”?
E, apenas como uma nota, não podemos deixar de mencionar a presença daquela que foi provavelmente a criança mais encantadoramente assustadora do cinema: Mikos Hughes, o inesquecível Gage de O Cemitério Maldito (Pet Sematery), como Dylan.
| Hughes e Englund |

