O homem à beira do abismo: romantismo anticapitalista de Löwy e Sayre



Caricatura italiana de 1848.


Um livreto cheio de categorias valiosas: eis o que é Romantismo e Política, de Michael Löwy e Robert Sayre. O que pretendo fazer aqui é uma breve exploração dessas categorias e suas consequências misturando um pouco de resumo e de resenha, de informação sobre o texto e de reflexão sobre ele. 

O livro é formado por dois artigos independentes mas que são unidos pelo tema comum do movimento romântico como resistência contra as novas formas que o capitalismo vai tomando desde o século XVIII e que se acentuam do século XIX em diante, endossando uma interpretação marxista heterodoxa da atitude romântica. É comum na bibliografia marxista ou não-marxista o enquadramento que liga quase que exclusivamente o romantismo à fuga do mundo ou ao rechaçamento da via revolucionária, o alijando de dinâmica política. Mas é justamente nisto que as categorias dos autores são atraentes, pois colocam posturas como seu afastamento político (no qual a história tem um papel fundamental) ou diversas matizes do conservadorismo como uma atitude política em si, cujo valor como resistência capitalista é fundamental para o desenvolvimento de uma crítica mais acirrada a partir da segunda metade do XIX. 

O ROMANTISMO EM TIPOS 

A primeira e mais longa parte do texto (também a mais interessante) chama-se Figuras do Romantismo Anticapitalista e é nela que os autores desenvolvem seu arsenal categórico-conceitual. Como é comum em obras que ousam fazer esse serviço necessário de colocar "os pingos nos is", há o aviso repisado de que tratam-se de tipos ideias weberianos e que nenhuma dessas categorias é encontrada em seu estado de pureza absoluta na experiência histórica concreta, seja de autores específicos ou de redes intelectuais. Pois bem, passado o aviso de salvaguarda quando ao alcance das categorias, temos os seguintes tipos: 

Romantismo restitucionista
Pretende, por assim dizer, voltar no tempo através da transcedência do presente e "restabelecer normas sociais e culturais pré-capitalistas desaparecidas (geralmente medievais)" (p. 29). Alguns exemplos: as obras operísticas de Richard Wagner, Kulturpessimisten como Spengler, os poetas ingleses Worthsworth e Coleridge assim como o historiador Carlyle. 

É o que alcança o maior número de casos e está "mais próximo da essência do fenômeno global" (p. 41), sendo encontrado principalmente entre escritores e tipos artísticos, já que seu projeto inconcretizável inspirava os inclinados ao simbólico e estético.

Seu foco principal é a Alemanha dos jovens frustrados com as promessas da Revolução Francesa (Frühromantik), reúne nomes como Ritter, Schleiermacher, os irmãos Schlegel, Ludwig Tieck e Novalis (formulando sua famosa oposição à Aufklärung), além de mais tardiamente E.T.A Hoffmann e Eichendorff. Também na Inglaterra ele está presente entre literatos, dos quais encontra-se forte expressão nos romances de Sir Walter Scott e das pinturas pré-rafaelitas. Na França, por outro lado, as posturas tendem a inverterem-se, gerando uma orientação mais liberal ou democrática para o futuro. 

Progressivamente a positividade tendeu a dar espaço ao pessimismo radical e as tendências de direita, vistas no romantismo resignado, revolucionário ou fascista. Mesmo assim permaneceu forte até a Segunda Mundial em nomes como Spengler, Yeats e T.S Eliot. Um dos melhores exemplos estaria em Georges Bretanos, notadamente em Cemitérios Sob a Lua.

Romantismo conservador
Ao invés de invocar o passado como modelo para o presente, este tipo tem como meta a manutenção daquilo que ainda não havia sido derrubado pela Revolução Francesa, o que restringe geograficamente em certa medida esta tipologia aos casos inglês e alemão. Tem fronteiras tênues com o romantismo conservador, sendo que seu limite está na aceitação elementos da ordem capitalista.

Presente em autores políticos como aqueles da Escola História de Direito (Hugo e Savigny), da filosofia positiva do Estado e dos membros da ideologia tory. O estadista e filósofo Edmund Burke é um dos grandes nomes desta tendência, principalmente por sua crítica ao Iluminismo e por representar uma mudança em relação ao passado em comparação ao restitucionalistas, já que a Idade Média é mais justificadora do estado de coisas atual do que um modelo de retorno, havendo portanto uma tendência em ver a história como um desdobramento orgânico geracional. 

Romantismo fascista:
Apesar de os fascismos serem em seu núcleo opostos ao romantismo, ambos estão unidos pela rejeição dos rumos do mundo moderno e pela nostalgia.
Importante a ressalva dos autores de que existe uma linha historiográfica que vê o romantismo como prelúdio do fascismo, tipo de leitura que atribui ao nacionalismo de Fichte e às posturas dos neo-românticos como Nietzsche, Wagner e Gobineau valor de precursores. Há no texto a recusa desse tipo de relação, afirmando que não há "correspondência entre as visões de mundo desses autores e a do fascismo." (p. 50)


Então o que é o romantismo fascista? Deve haver o fator da nostalgia, como vemos na ideologia nazista  de idolatração da "velha Alemanha tribal e feudal, da vida campestre tradicional contra o frenesi das grandes cidades, das antigas Gemeinschaften contra a Gesellschaft de hoje. Tais nostalgias figuram na arquitetura, nas artes plásticas e no cinema da época do nazismo, como também na literatura." (p. 51). Vê-se então uma mistura complexa de elementos de anticapitalismo, condenação violenta da democracia, comunismo, anti-semitismo, valorização da subjetividade, glorificação irracional do estado puro, do instinto e da agressividade: "o culto romântico do amor torna-se seu oposto: o elogio da força e da crueldade" (p. 51)

Romantismo resignado ou "desencantado":
Caracterizado por uma "visão trágica do mundo". Aceita com relutância o capitalismo, mas exerce crítica feroz à industrialização. São autores deste tipo também Dickens, Flaubert, Thomas Mann e está fortemente enraizado na primeira geração da sociologia alemã como Lujo Bretano, Gustav Schmoller, Alfred Troeltsch, Georg Simmel, Karl Mannheim e Max Weber.

A diferença na postura anticapitalista deste grupo está na "dimensão trágica na medida em que seus valores sociais e culturais (de caráter pré-capitalista) parecem condenados ao declínio e oa desaparecimento na realidade presente, ou seja, a sociedade industrial/capitalista" (p. 55). Tal tragicidade é percebida em Georg Simmel, principalmente em seu ensaio Der Begriff und die Tragödie der Kultur (O Conceito e a Tragédia da Cultura), presente em Des Geldes (Filosofia do Dinheiro), de 1900.

Para Löwy e Sayre, o maior representante desta vertente é o sociológo Ferdinand Tönnies, em seu Gemeischaft und Gesellschaft (Comunidade e Sociedade), de 1887. Aqui reaparece o confronto clássico - que será "um dos principais temas do romantismo anticapitalista na Alemanha" (p. 56) - entre o conceito de Kultur (valores da comunidade ligados aos elementos tradicionais e locais de ajuda mútua) e Zivilization (mundo da fábrica, do Estado e da cidade). A tragicidade de Tönnies estaria na certeza de que o declínio das formas comunais era irreversível, sendo uma perda irreparável.
 
Romantismo liberal: 
Acredita que o  capitalismo não é tão mau após o saneamento de alguns problemas morais e sociais. São exemplos o historiador Michelet e o escritor Victor Hugo.

Aqui existe também um problema conceitual, uma vez que liberal era ainda um termo bastante impreciso no começo do século  XIX, podendo guardar tanto o sentido de uma parcela politicamente orientada para a defesa dos interesses burgueses frente à aristocracia/igreja como também uma orientação progressista (mudança e futuro) mais ampla.
Definimos a perspectivasdo romantimso liberal como aquela que, mesmo fazendo a crítica ao mundo moderno burguês regido pelo poder do dinheiro, não tira consequências radicais dessa crítica, contentando-se em fazer votos de reforma quaisquer e não de mudanças mais fundamentais. Esses românticos fazem pois as pazes, ao menos em certa medida, com o status quo, e recuam diante da perspectiva de subversões sociais. (p. 58)
Existem duas formas de os autores acomodarem a contradição inerente entre romantismo e liberalismo: ou há a ruptura entre o perfil da escrita política e literária (como no caso de Saint-Beuve) ou as contradições coexistem dentro da obra (como em V. Hugo).

Romantismo revolucionário e /ou utópico:
É a categoria mais ampla e recusa a fuga ou a reforma, optando pela negação do capitalismo e a eleição de uma "utopia futura na qual certos traços e valores da sociedade pré-capitalista seriam reencontrados." (p. 31). Esse tipo ainda tem subcategorias:

1) Romantismo jacobino-democrático: encontra a referência utópica em Roma ou Grécia antigas, como visto em Heine, Blake, Rousseau, Hölderlin, Stendhal e Shelley. É formado, na Alemanha, pela geração que foi entusiasmada pela Revolução Francesa (e que, posteriormente, tornou-se restitucionista). Os ingleses como William Blake, Coleridge e Worthsworth, alé dos mais radicais como Byron e Shelley também fazem parte desse tipo.

2) Romantismo populista: alternativa se volta para o modo de produção camponesas ou artesanais, como nos romances de Tolstoi. Baseado na rejeição ao capitalismo ocidental, opta pela comuna rural russa e tem como expressão política o Narodnaya Volya (a vontade do povo), movimento que desejava comunicar ao campesinado as ideias revolucionárias. Também Sismondi, apesar de não ser revolucionário, guarda afinidades com o tipo já que condena a busca da riqueza por ela mesma (cremástica).

3) Socialismo utópico-humanista: a noção de liberdade é coletiva e dirigida à toda a humanidade e não apenas ao proletariado. Um de seus representantes foi Moses Hess, autor que desenvolveu, em História Sagrada da Humanidade (1837), um messianismo histórico inspirado na antiguidade e, em La Triachie Européenne (1841), propõe uma tese arrojada de "constituição da Europa como "organismo" unificado, a partir de uma aliança espiritual entre França, Alemanha e Inglaterra, que conduziria ao estabelecimento do Reino de Deus sobre a Terra." (p. 69).

4) Romantismo libertário: encontra o auge entre o final do século XIX e começo do XX. Opõe-se ao estado centralizado, insistindo nas comunidades locais, e tem tendências políticas anarquistas. São seus expoentes Strindberg, Oscar Wilde e Kafka. Gustav Landauer, cuja inspiração na religiosidade leva-o à tradução dos escritos de Mestre Eckart, desenvolve inclusive uma crítica a Marx, já que para ele  a "tarefa do socialismo não consiste em aperfeiçoar o sistema industrial e sim em ajudar os homens a reencontrar a cultura, o espírito, a liberdade e a comunidade." (p. 71)

5) Romantismo marxista: opera ao mesmo tempo com nostalgia do passado (da Gemeischaft, comunidade) como na aposta de uma utopia futurista, como aparece nos pensadores da Escola de Frankfurt, em Lukács, Bloch, Raymond Williams e Thompson. Os primeiros esforços de integrar o neo-romantismo ao marximo marca do final do século XIX, principalmente com William Morris, idealizador, juntamentwe com Burne Jones e Dante Gabriel Rossetti, da Confraria Pré-Rafaelita. Morris desenvolve um pensamento que liga dialeticamente futuro e passado.


ROMANTICOS UTÓPICOS QUANTO À REVOLUÇÃO FRANCESA 

Como foi dito na introdução, o romantismo é comumente ligado à uma postura política anti-revolucionária. No entanto, o texto apresenta posicionamentos intelectuais que aderiram, ainda que de forma fluída e de inspiração rousseauniana, à Revolução Francesa. 

Curiosamente,  as manifestações aconteciam no plano literário. A obra Quatre vingt treize, de V. Hugo, mostra como parte dos românticos - como o próprio Hugo - concebiam a revolução em termos de "poesia, amor, benevolência, "utopia" (p. 85), entendendo que a Revolução deveria adentrar o campo social.
 

TREVAS VERSUS LUZES: ROMANTISMO E ILUMINISMO

Entender o Romantismo como antípoda dos valores iluministas é algo comum, principalmente quando se ressalta questões como universalidade contra subjetividade ou racionalidade contra fluidez.

Edmund Burke, estadista e filósofo inglês, encarnaria os valores românticos de  ojeriza ao Iluminismo de forma bastante exemplar, considerando o pensamento das luzes como uma "filosofia bárbara produzida por "corações frios"" (p. 47), postura que lhe rendeu leitores na Alemanha.

No entanto, por mais que essa constatação dê conta de algumas questões, ela não resolve a relação entre esses dois momentos por completo. Na tipologia romantismo jacobino-democrático, a relação entre os opostos é maior. O elo aqui, como não é de surpreender, é Rousseau, cuja nostalgia do homem primitivo o coloca como uma espécie de produtor de antítese dentro das forças fortemente positivas de orientação para o futuro no Iluminismo. Da mesma forma, Löwy e Sayre ainda apontam o viés Aufklärer no racionalismo do romantismo libertário que em Landauer "reconhece a importância e o valor de certas aquisições da civilização: A Aufklärung, a abolição das superstições, o avanço da ciência." (p. 72).
 

O ALCANCE DO ROMANTISMO

A tendência atual de não romper com romantismo, ou seja, de não considerá-lo como um movimento e sim como uma ideologia, visão de mundo (Weltanshauung) ou postura intelectual leva ao questionamento sobre o quanto de romantismo ainda sobrou em nós. Como vimos nos exemplos citados na tipologia acima, o fato de os nomes adentrarem biografias do século XX - como os frankfurtianos - indica que a cronologia é extendida a ponto de mostrar que o romantismo é uma herança de longa duração. Casos de romantismos contemporâneos podem desenrolar-se ad infinitum.

Outra característica explorada por Löwy e Sayre que faz com que o romantismo apareça como um fenômeno interminável é sua característica contraditória, ambígua e "hermafrodita" (p. 34). Isso confere uma unidade na descontinuidade que é bastante curiosa. Mas vale a ressalva de que nem todo pensamento é romântico, mesmo que contenha características que aparentemente sejam românticas. Esse é o caso, segundo os autores, de vários ramos do conservadorismo, liberalismo e marxismo que além de não serem românticos, podem, inclusive, serem anti-românticos. Ainda existiria a via dialética que não é romântica nem anti-romântica e sim um superação das mesmas a partir de uma complexa fusão do romantismo e de sua antítese.

O CONCEITO DE INTELLIGENTSIA E A AFRONTA AO DOGMATISMO DEFORMADO

Além disso, a expansão do conceito é maior na medida em que o texto propõe o desenraizamento do romantismo de uma experiência de classe (burguesa) e seu realocamento sociológico que leve em conta a "sensibilização diferencial a esta experiência na totalidade social" e que produz uma intelligentsia, ou seja, um "grupo composto de indivíduos de diversas origens sociais, cuja unidade e autonomia (relativa) resultam de uma posição comum no processo de produção da cultura." (p. 37).

A intelligentsia tradicional é fator central para a compreensão do atrito entre visões de mundo que eram produzidas nesse momento de mudanças históricas profundas. Existe, de fato, uma alteridade marcante que vai além de locais sócio-econômicos e adentram o terreno dos valores morais. Assim, o velho mundo está baseado em fatores qualitativos, que abarcam em todos os aspectos uma concepção espiritual  das relações e que se colocam em linha de embate com um sistema cuja definição passa por fatores quantitativos: nesse novo mundo, os tradicionais tem que atribuir preço ao que agora tornam-se produtos espirituais. A venda introduz o polo de consumo, o que prova o argumento da localização sócio-econômica como não sendo o fundamental para a definição do problema:
Ela [a audiência dessa intelligentsia] é composta, potencialmente, de todas as classes, frações de classe ou categorias sociais para as quais o advento e o desenvolvimento do capitalismo industrial moderno provocam um declínio ou uma crise no seu status econômico, social ou político, e/ou ameaçam seu modo de vida e seus valores culturais aos quais estão ligadas. (p. 39, grifo nosso)
E não só da decadência parece se alimentar o romantismo, já que se fosse assim sua durabilidade estaria seriamente abalada. Mas não é o que vemos e a hipótese é de uma "influência difusa" do romantismo que recai sobre toda a sociedade, como se esse elemento espiritual acabasse driblando os efeitos destrutivos do capitalismo (ou mesmo deles retroalimentando-se).

Este tipo de comentário significa um posicionamento mediante a literatura marxista sobre o tema, pois sempre houve um problema em ligar o marxismo ao romantismo quando o último é encarado como conservadorismo ou apatia política, além da relutância de algusn autores em admitir o horizonte utópico de Marx.
Tal redução do romantismo a uma ideologia burguesa - colhida aqui em críticos que têm, aliás, qualidades reais - é de fato um lugar-comum de uma certa deformação dogmática que rejeita violentamente as afinidades entre as visões de mundo marxista e romântica. (p. 35)
 Da mesma forma, há um acerto de contas com o "movimento dogmático" na medida em que os adjetivos "retrógrado" ou "passadista" são considerados pejorativos e abolidos do vocabulário do texto (p. 29), adotando-se sugestões como restitucionalista, emprestado do historiador das religiões Jean Seguy. Tudo segue na busca de uma rede mais fina para a apreensão do problema romântico, sem que se perda o tino sociológico de percepção da questão.


Por ocasião do lançamento do livro, a Revista de História lanço uma resenha deste mesmo livro. O link está aqui.



REFERÊNCIA:
LÖWY, Michel; SAYRE, Robert. Romantismo e Política. São Paulo: Paz e Terra, 1993, 98p.

Perfil do livro na editora










Recorte: Georges Bernanos e o Brasil

Reprodução da matéria divulgada no site da Biblioteca Nacional por ocasião do Ano do Brasil na França (2010).

Georges Bernanos e o Brasil

Georges Bernanos
Daquilo que poderia parecer um acidente de percurso, uma escala no Brasil que finalmente vai se estender por sete anos (1938-1945), Georges Bernanos fará mais tarde uma predestinação: “[…] desde que voltei ao meu país, compreendo melhor do que antes que minha estada no Brasil não foi apenas um mero episódio de minha singela vidinha, mas estava inscrita desde sempre na trama de meu destino. Amei o Brasil por uma série de razões, mas em primeiro lugar, e antes de tudo, porque eu nascera para amá-lo” (Carta a Raul Fernandes, Bandol, 1° de março de 1946).

Fugindo da França e da Europa, após sua estadia nas Ilhas Baleares e seu panfleto contra o terror franquista, Os grandes cemitérios sob a lua, Georges Bernanos aspirava realizar um antigo projeto que três amigos de juventude tinham concretizado bem antes dele: se instalar no Paraguai. Ele embarca em Marselha no dia 20 de junho de 1938, com destino a América do Sul. Mas nem Assunção nem Buenos Aires ofereciam oportunidades que se adaptassem ao magro pecúlio que ele reunira. Portanto, é no Rio de Janeiro que ele ancora, no início de setembro. Logo circundado por um grupo de intelectuais católicos que admiram e auxiliam o autor de Diário de um pároco de aldeia (1936), ele inicia uma busca incerta que o leva dos hotéis cariocas a Pirapora, nas profundezas setentrionais de Minas Gerais, passando por Itaipava, Juiz de Fora e Vassouras, antes de finalmente estabelecer sua “tribo”, em agosto de 1940, perto de Barbacena, na Cruz das Almas.

A meio caminho entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, esta propriedade a qual ele acrescentou três construções vai representar para o escritor um período de estabilidade e de retorno a um certo equilíbrio, mesmo se com frequência ele reside no Rio, especialmente em 1944-1945. Enquanto sua filha Claude administra a fazenda, ele peleja contra a liquidação pétainista na mídia internacional, como a da França livre, a BBC, e nos jornais brasileiros, opinando regularmente, a partir de junho de 1940, n’O Jornal, um dos órgãos dos Diários Associados pertencentes à Assis Chateaubriand. De maio de 1940 a maio de 1945, ele redige mais de trezentos artigos ou mensagens radiofônicas, alguns deles tendo permanecidos inéditos, em marcha “à honra como quem marcha ao canhão”. (Essais et écrits de combat, tomo II, Paris: Gallimard, “Bibliothèque de la Pléiade”, 1995, p. 203).

Portanto, se o Brasil foi para Bernanos uma terra de exílio, um refúgio onde “digerir a vergonha” do “espírito de Munique”, após também ter sido por algum tempo a terra onde sonhou refundar uma aldeia, uma paróquia da “antiga França”, o escritor ali teceu rapidamente sólidas amizades. Entre os mais próximos, ele encontrou apoios preciosos de gente que não mediu esforços para lhe abrir um espaço de vida e de expressão: Virgílio de Mello Franco, Raul Fernandes, Geraldo França de Lima e Pedro Octavio Carneiro da Cunha, ou ainda Edgar de Godoy de Mata Machado, tradutor de Diário de um pároco de aldeia, a crítica Lucia Miguel Pereira, que por algum tempo traduziu seus artigos, e seu editor no Rio, Charles Ofaire (Atlântica editora), o primeiro a publicar Monsieur Ouine (romance finalizado em Pirapora, em 1941), Lettre aux Anglais (1942) e Le Chemin de la Croix-des- Âmes (coletânea de intervenções publicada em quatro volumes, de 1943 a 1945). A isso é preciso acrescentar seu diálogo com intelectuais e poetas católicos de renome: Augusto Frederico Schmidt, Jorge de Lima (cuja tradução espanhola de Poemas é prefaciada por Bernanos), Alceu Amoroso Lima (que trouxera ao Brasil o casal Maritain em 1936), Austregésilo de Athayde, Murilo Mendes…, que darão sobre ele vibrantes testemunhos de consideração e de amizade.

Sua fama, claro, foi bem diferente da de Jacques Maritain, que desempenhou um papel relevante, tanto no Brasil quanto na América Latina, para a difusão do neotomismo e a evolução política do catolicismo à democracia. Obstinado pela liberdade de tom e de pensamento, Georges Bernanos não tem a maleabilidade diplomática do teólogo que, outro sinal de diferenciação, durante a guerra escolheu com sua mulher o exílio americano. Aliás, o escritor terá tido com o editor de Sob o sol de Satã (1926) uma relação em geral mais tensa do que amistosa. Esbravejava, vituperava, com o risco de por vezes incomodar seus interlocutores, desestabilizados por tiradas como aquela contra “o Alto Banco israelita” que originou uma polêmica com Otto Maria Carpeaux (janeiro-maio de 1944). Monarquista invocando uma nova “revolução de 89”, ele irrita também os meios gaullistas, às vezes quase tanto quanto serve-lhes à causa, como por exemplo ao resistir aos chamados do general que o queria ao seu lado. Em todo caso, naqueles tempos conturbados, Georges Bernanos encarnou, com seu verbo potente e livre, tanto junto a intelectuais brasileiros frequentemente opostos à ditadura de Getúlio Vargas, quase sempre francófilos e hostis às forças do Eixo, quanto junto à parcela da colônia francesa que não se resignando ao regime de Vichy às vezes ainda permanecia, por causa do estatuto, presa a uma certa reserva, Bernanos encarnou a dignidade e a continuidade de um certo “modelo” francês.

DOCUMENTOS ASSOCIADOS

Se os textos que Georges Bernanos redigiu no Brasil — essencialmente escritos de luta, mas também diários e correspondência —, decepcionam a curiosidade exótica ou pitoresca, é porque seu desejo e seu olhar estão mobilizados pelo campo de batalha europeu e seus próprios ideais de cristandade cavalheiresca. Não se poderia deduzir disto uma indiferença em relação ao país e a sua cultura, que é, ao contrário, objeto de uma grata benevolência e, além disso, contraponto ideal ao american way of life que ele abominava. Georges Bernanos leu inúmeros livros brasileiros quando de sua estada no Brasil, confessando um fraco por dois dentre eles: as picarescas Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida (1854), do qual uma versão francesa foi publicada justamente nesse período por seu editor Charles Ofaire (Mémoires d’un sergent de milices, tradução de Paulo Rónai, Atlântica editora, 1944); e o frescor das recordações de infância de Helena Morley, Minha vida de menina, publicado também durante essa época, em 1942, e que tem como cenário Minas Gerais do fim do século XIX. Em janeiro de 1945, ao declinar o convite para participar do primeiro congresso da Associação Brasileira de Escritores (ABDE), ele enviou a seus membros uma calorosa mensagem onde disse: “[…] da admiração e gratidão que sinto pelos escritores brasileiros, em particular pelos romancistas e poetas cujas obras foram muitas vezes um reconforto para minha solidão de Cruz das Almas.”

A Dream Within a Dream em O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger


A penúltima parte da cultuada franquia A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street) faz uma ginástica e tanto para ressuscitar o macabro e espirituoso Freddy Krueger pela sétima vez. A estreia do primeiro filme aconteceu em 1984 e já naquele momento Freddy Krueger foi reconhecido como um dos membros do panteão do terror cinematográfico da nova geração (aquela que se constituirá entre as décadas de 70 e 80) com seu humor de mau tom, seus trejeitos felinos e sua criatividade para atrair os jovens para suas armadilhas enquanto dormem.


 
A saída de mestre neste filme é romper a quarta parede e assumir Freddy como ficção, criando um efeito de estranhamento forte o suficiente para prender a atenção do público. A estrutura é do tipo “mais estranho do que a ficção”, um filme dentro de uma realidade que é também filme (ainda que essa última camada apareça no filme como a “realidade real”), o que causa uma fusão entre realidade e filme: os atores representam a si mesmos dentro do filme, incluindo a audácia de revelar o rosto por trás de Krueger, o ator consagrado no gênero Robert Englund, assim como o próprio criador, Wes Craven.

Robert Englund




Mas qual o interesse disso? Em primeiro lugar, há o exercício teatral quando os atores não são eles mesmos mas uma representação de si, portanto há a interpretação dos atores enquanto atores de A Hora do Pesadelo. Em segundo, o argumento central do filme funde-se num nível mais profundo, o que significa que a atmosfera onírica do pesadelo consegue abarcar agora uma realidade mais profunda, uma pseudo-realidade que se assemelha mais e mais com a realidade do espectador. Daí que é um passo para Freddy poder emergir do sofá de nossa casa, de nossos pesadelos também... Quem garante?

Wes Craven
A história começa da mesma forma clássica dos anteriores, para em seguida mostrar que tudo está acontecendo num set de filmagens, para, logo em seguida, mostrar que esse mesmo set faz parte de um sonho. Num primeiro momento é decepcionante quando somos informados que nada passou de pura invenção, Freddy e Nancy são personagens e tudo é obra da cabeça de Wes Craven. Mas eis que surge uma nova camada quando a atriz Heather Langenkamp (musa teen da franquia) começa a ter pesadelos “de verdade” com o retorno de Freddy, o que parece também acontecer com seus companheiros de filmagens Englund e Craven. Então é convidada para estrelar novamente Nancy em mais um terror de Krueger, uma vez que Craven informa que está trabalhando em uma nova história da série influenciado por sonhos.

Na justificativa da continuação (vemos que ainda na metade da duração o filme está explicando a si mesmo) entendemos que as seis histórias anteriores nasceram dessa forma, foram sonhadas pelo roteirista/diretor sob algum tipo de influência sobrenatural. E aqui está um dos pontos mais interessantes da estratégia: Freddy estaria emergindo na “realidade real” porque é progressivamente esquecido na realidade fílmica: enquanto seus requintes de terror divertidíssimo eram contadas e lembradas nos filmes, o vilão da rua Elm estava preso nelas, mas no momento em que o horror não é mais representado ficcionalmente, ele tem que concretizar-se e fazer-se contar na realidade da vida real. Isso nada mais é do que a própria celebração da função do horror ficcional na vida do homem moderno já que é através do ritual de encenação no qual há margens de segurança e regras de narrativa que a sociedade expurga seus males e medos através do gênero que criou como representação de si. É preciso que haja a hora do pesadelo no filme para que possamos estar despertos na vida real e, ao mesmo tempo, questiona-se o quanto do real está suscetível às investidas dos sonhos horríveis, o quanto a realidade é, como disse Allan Poe, “a dream within a dream”... Quem pode ouvir ao fundo “1, 2... Freddy is comming for you”?



E, apenas como uma nota, não podemos deixar de mencionar a presença daquela que foi provavelmente a criança mais encantadoramente assustadora do cinema: Mikos Hughes, o inesquecível Gage de O Cemitério Maldito (Pet Sematery), como Dylan.

Hughes e Englund


Filme: Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger
Título Original: New Nightmare
Ano: 1994 
Diretor: Wes Craven
Elenco: Heather Langenkamp, Robert Englund, Mikos Hughes.
Cotação IMDb:


Assista o trailer: